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06/06/2019

Entenda os impactos dos veranicos sobre a soja na safra de 2018/2019..

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A safra 2018/2019 foi marcada pelos fortes veranicos. Para entender como esses eventos climáticos afetam as lavouras, é preciso considerar algumas interações entre fatores adversos. Em grande parte das regiões produtoras de soja do Brasil, entre outubro/18 e fevereiro/19, as temperaturas médias diárias foram relativamente elevadas. Mas o calor isoladamente não explica as graves perdas de produtividade ocorridas em várias localidades.

O desenvolvimento ótimo da soja acontece entre 20 a 30 ºC, ou seja, dentro deste intervalo de temperatura não há problemas fisiológicos significativos para a lavoura. Mas no verão, em regiões de clima tropical e subtropical, é expressiva a probabilidade de se ter períodos de ausência de chuva associada a altas temperaturas, o que caracteriza os chamados veranicos.

Quando há veranicos, a umidade relativa do ar fica muito baixa e o déficit de pressão de vapor permanece elevado durante praticamente todo o dia, durante vários dias. Nessas condições, as plantas, em um comando de sobrevivência, fecham seus estômatos para cessar a transpiração e, consequentemente, paralisam a fotossíntese. E no caso da soja, por ter via fotossintética C3, ou melhor, por ter estrutura bioquímica para fixação de carbono relativamente menos adaptada às regiões tropicais em relação a culturas C4 (milho, cana, braquiárias, etc.), os prejuízos são bastante acentuados. Há que se incluir também nessas situações de veranicos as temperaturas noturnas relativamente elevadas, que intensificam demasiadamente a taxa respiratória das lavouras, consumindo muita energia (fotoassimilados) que poderia ser convertida em biomassa e grãos.

O nível de impacto dos veranicos sobre a soja depende do número de dias sequenciais de estresse, e da fase fenológica em que as plantas se encontram por ocasião da adversidade climática. Se a lavoura estiver com estande adequado e com plantas vigorosas, sem problemas fitossanitários e com nutrição adequada, os veranicos na fase vegetativa têm impacto relativamente moderado sobre a produtividade. Mas, se ocorrerem durante a fase de enchimento de grãos, os prejuízos são geralmente graves.

Na safra 2018/2019, muitos sojicultores vivenciaram dois grandes veranicos, o primeiro entre final de novembro a meados de dezembro, e o segundo entre início de janeiro a início de fevereiro. Em determinadas regiões, como no oeste do Paraná, grande parte das lavouras foi instalada entre 10 a 30 de setembro, as quais sofreram demasiadamente com o primeiro veranico, pois encontravam-se em pleno enchimento de grãos. Para os agricultores que fizeram a semeadura da soja em outubro, em localidades de baixas altitudes, como em extensas regiões do PR, SP, MS, MG, GO, etc., o segundo veranico foi bastante prejudicial, porque também foi longo e incidiu no período de enchimento de grãos.

Contudo, é preciso fazer ressalvas quanto a alguns ambientes de produção. Em certas microrregiões acima de 600 m de altitude, para as lavouras instaladas a partir de meados de outubro e em novembro, como no centro-sul do Paraná, mesmo havendo veranicos, o desenvolvimento da soja foi bastante satisfatório, e em muitos casos as produtividades foram elevadas. A explicação também é ecofisiológica. À medida em que há aumento da altitude, as temperaturas médias diárias se tornam mais amenas. Portanto, quando ocorrem veranicos, a umidade relativa do ar não é tão prejudicada, e o déficit de pressão de vapor fica relativamente favorável em parte considerável do dia. As plantas têm períodos mais longos de fotossíntese efetiva, e as temperaturas relativamente menores no decorrer da noite minimizam as taxas de respiração. Nesses ambientes, há maior produção e conversão de fotoassimilados em biomassa e grãos.

Quanto às tecnologias para minimizar os impactos dos veranicos, primeiramente, é preciso assumir que não se usa irrigação em mais de 95% das lavouras de soja em todo o Brasil, em um montante de cerca de 36 milhões de hectares. Diante desse cenário, para a maioria dos sojicultores não há como erradicar o risco dos veranicos, ou seja, é preciso conviver com o problema, no sentido de manter a estabilidade produtiva e a viabilidade econômica da cultura.

Há uma série de tecnologias agronômicas a serem praticadas, de curto, médio e longo prazo, para minimizar os efeitos dos veranicos sobre a soja: (1) respeitar o zoneamento agrícola de risco climático; (2) buscar cultivares mais adaptadas (transgênicas ou não) para cada região de adaptação edafoclimática; (3) construir o perfil do solo com fertilizantes, calcário, gesso, etc., para aumentar o enraizamento em profundidade; (4) intensificar os processos tecnológicos que ampliem permanentemente a conservação do solo e da água, no âmbito do sistema plantio direto e, quando for o caso, englobando os sistemas integrados de produção agropecuária; (5) adotar estratégias que aumentem periodicamente a diversificação de culturas, com o intuito de promover o incremento (ou manutenção) da matéria orgânica e da palhada de cobertura do solo; e também que possibilitem melhorar o ambiente radicular quanto a atributos químicos, físicos, biológicos e fitossanitários; (6) aprimorar o manejo fitossanitário que proporcione melhor desempenho das lavouras em condições de estresse por déficit hídrico, principalmente no que diz respeito ao controle de doenças e pragas de solo; (7) utilizar procedimentos que minimizem efeitos fitotóxicos de agroquímicos associados ao estresse por estiagem; (8) englobar a semeadura escalonada para aumentar as chances de escape das lavouras em relação à incidência de veranicos na fase de enchimento de grãos; e (9) considerar todas as práticas agronômicas que possibilitem aumentar a eficiência de uso da água pelas plantas.

Conclui-se, portanto, que para conviver com veranicos no dia a dia de culturas anuais de grãos como a soja, em um contexto de clima tropical e subtropical, e sem aporte de irrigação, é preciso ampliar fortemente os investimentos em tecnologias que proporcionem maior estabilidade produtiva, associados aos imprescindíveis investimentos para incrementar a produtividade.

Fonte: Canal Rural

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